2.3.18

Senta aqui papá, precisamos conversar sobre a mamã.
"Ei papá,
Estou ainda a acostumar-me à tua barba que espeta e às tuas mãos grandes que seguram o meu corpinho de bebé, mas já percebi pelo teu sorriso que és amigo e por isso vou dar-te umas dicas sobre a mulher da nossa vida. Essa mesmo, a mamã.
Ontem de madrugada ela estava triste. Sozinha e no frio. Eu chorei, porque ela não podia. Pedi colo, porque assim eu dava-lhe um pouco de colo.
Tenta entender papá.
Então, quando descobrires as dobrinhas a mais na barriguinha dela, vamos combinar que não vais criticar. Quando vires que o cabelo dela, antes bonito e brilhante, está agora sem brilho e descuidado, ajuda-a a perceber que vai passar, tudo vai melhorar. Diz-lhe todos os dias que ela é linda. É isso que eu digo quando a acordo com um sorriso às 3 da manhã.
Eu e a mamã passámos 40 semanas juntos na barriguinha e eu ainda preciso muito dela. Então, se de manhã ela estiver com olheiras por não ter dormido, seja compreensivo e não te irrites se ela não achar boa ideia tu ires ao futebol com os teus amigos e quiser a tua companhia. Troca a minha fralda ou lava a louça lá na cozinha e lembra-te que vai passar! Daqui a pouco vou para o futebol contigo e a mamã pode ler aquele livro que comprou antes de engravidar e deixou de lado para ler tudo sobre maternidade.
Lembra-te a cada segundinho que não é fácil criar e parir uma nova pessoa. Lembra-te dos seios dela sempre pesados, a gotejar leite e algumas vezes bastante doridos e feridos. Eu estou a aprender ainda e algumas vezes sou impaciente. Mas a mamã nunca é!
E se ela não souber o que fazer e se desesperar enquanto eu choro desesperado, também sem saber o que fazer com o meu corpinho e as coisas novas que estou a aprender, pega-me ao colo, passeia comigo pela casa e dá alguns minutinhos para a mamã chorar escondida, respirar fundo e voltar para mim. Às vezes vamos precisar desses minutinhos longe para vermos o quanto nos queremos.
Entende por favor que ela vai ficar um tempo sem maquiagem, que ela vai até esquecer de escovar os cabelos depois das madrugadas que passarmos acordados. E se isso acontecer, penteia-lhe, faz-lhe uma massagem nos ombros tensos. Ela acha que tem que carregar o mundo todo nos braços e carrega, porque eu sou o mundo dela agora (mas depois quando eu crescer, prometo deixar-te entrar nesse nosso mundinho!).
Algumas noites eu vou estranhar o mundo e tudo à minha volta. Vou chorar a valer. Provavelmente vai acontecer no mesmo dia que eu passar a tarde toda acordado, a brincar e testar as minhas perninhas e braços.
A mamã estará exausta, eu sei. Mas não posso evitar experimentar o mundo.
Quando eu tiver até vermelho de tanto chorar e a mamã estiver a chorar comigo, pega-me ao colo, leva-me para uma voltinha no prédio e dá à mamã pelo menos uma hora para tomar um banho relaxante ou uma sonequinha.
Eu vou lembrar-me de ti papá na mesma proporção do tempo que tu te dedicares a mim. Aquelas horas que tu “perderes” deixando de lado um jogo na TV ou preciosas horas de sono são as que irão contar na balança do nosso relacionamento.
E pode ser até que a gente se acerte quando eu estiver maiorzinho, mas não podemos deixar a mulher da nossa vida a sentir-se mal com ela mesma nesse tempo não é?
Porque ela vai papá. Vai culpar-se, vai achar que não está a dar conta.
O meu trabalho é sorrir para ela e amá-la cada dia mais. O teu é fazer parte!"
Podia ter sido o meu filho a escrever. É isto mesmo.

Chegou o Guilherme ❤

Dia 24 de janeiro de 2018 soubemos que estavas a chegar...
As malas já estavam prontas e no carro do Pai. A Avó Teresa lá veio apressada para estar perto e para que pudéssemos ter o seu apoio. E saímos de casa os três, no dia 25, às 7 e pouco da manhã. Cada um carregava o seu saco de nervos e ansiedade.
Chegámos. Abracei e disse um até já à Avó Teresa. Abracei-me ao teu Pai e dei-lhe dois beijinhos. Vê lá tu os nervos que a Mãe tinha em cima...
Fui recebida por umas enfermeiras queridas e lá me instalei no quarto novo. Mais tarde o Pai veio para ao pé de mim. Entre comprimidos, soros, copos de chá, duas mini gelatinas [sim, passei muita fome!], muita baba e ranho, chichis, onde-está-a-minha-mãe, epidurais, mimos do meu amor, medos, ai-o-que-vai-acontecer-a-seguir, dei por mim a caminho da sala de partos. Depressa apareceu o Pai com uma vestimenta à altura e a câmera na mão [tantas foram as vezes que lhe pedi para que não se esquecesse...].
Estava a acontecer e aconteceu mesmo tudo muito rápido!
Quando me apercebi cá estavas tu e eu a pedir para que o Pai te cortasse o cordão umbilical.
Chorei. Chorou o Pai. E depois, choraste tu! Nasceste enquanto passava na rádio a música dos Xutos & Pontapés - À minha maneira! [Mas não vai ser sempre porque eu cá ainda mando em ti até teres 18 anos!].
Apaixonei-me por ti no minuto em que te olhei e te ouvi. Sim, é mesmo verdade. O mundo parou e éramos só nos os três numa bolha de amor gigante.

E hoje Guilherme, já fizeste um mês. Já nos fizeste sorrir muito. Já nos fizeste sentir muito pequeninos, mais pequeninos do que tu!  Já ficámos horas a olhar para ti a pensar: ok, e agora?. Já nos fizeste muitos chichis e cocós para cima. Já nos fizeste questionar como é possível amar desta forma e que raio de amor é este que não dá para explicar a ninguém. Já meteste os nossos corações à prova. Já tivemos que ficar separados e foi como se me tivessem tirado o ar. Já nos fizeste ter vontade de te comer às dentadinhas. Já fizeste com que o cansaço me vencesse e dormíssemos mais horas do que o suposto. Já me sorriste.

Fazes de nós os Pais mais felizes e babados do mundo. E cada dia te amamos mais. E mais. E mais.